O filho chega no quarto do pais, que já roncavam há tempos.
Senta-se na cama, sem acender a luz. A
mãe roncava tanto que qualquer despertador faria silêncio no momento programado
de alarme. O filho acorda o pai. Pai, quero me matar! O pai, curiosamente, não
se assustou, apenas se sentou ao lado do filho. Pai, tudo que eu faço dá
errado, sei fazer nada direito. O pai pergunta porque o filho pensava daquela
maneira. Silêncio. O filho não olhava para a cara do pai. Parecia sentir
vergonha, desprezo por si. É, é, é, é... fiz nada de errado não, só as coisas
que dão errado, não sei definir bem. Só quero acabar logo com isso. O pai coçou
uma careca feia e sardenta, mas cheia de experiência. Tá me dizendo que fez
nada de ilegal e imoral? O filho deu risada e concordou. Se eu não tenho
serventia e até atrapalho, não faz sentido eu continuar a viver. O pai olha bem
pro filho. Então porque você já não se suicidou? O filho se assusta. Como
assim? Estava sendo encorajado a se suicidar. Ah, pai, tenho medo, mas quero me
suicidar, não aguento mais? O pai, curioso, pergunta o quê o filho não mais
aguentava. Ah, não sei. O pai deu um risinho de canto de boca. Filho, se você
não sabe o motivo que o faz pensar em morrer, então você morreria por nada? E
você não quer justamente fazer algo direito, servir pra alguma coisa? O filho
fica confuso. Pensa. É, pai, eu queria morrer por nada mesmo - falou por falar, pra fazer afronta. Cabeça
mais confusa. Então sua morte terá nenhuma serventia e isso seria mais uma
prova de que você é um ser humano qualquer nesse mundo, que morreu e fez
nenhuma diferença em vida. Cabeça fervendo. É, pai, mas pelo menos eu ia me
aliviar de todo esse sofrimento. O pai ri. Filho, você iria sofrer mais ainda.
Primeiro que ninguém te daria uma injeção letal pra você não sentir dor durante
a morte, então você teria que partir para métodos agressivos. Você já se chora
todo com um cortezinho no dedo. E, embora você conseguisse um método pra não
sentir dor, você sofreria do mesmo jeito, porque perderia os seus sentidos, a
percepção de estar nesse mundo. É, pai, mas todo mundo fala que a outra vida é
muito boa, sem sofrimento, sem nada. O pai bota a mão no na barba, um tanto
branca. Se a outra vida fosse tão boa, todo ser humano se suicidaria. E conheço
uma ``pancada`` de gente que acredita na outra vida e não se mata.
Ma,ma,ma,ma,mas pai, o que eu faço então? Filho, você só consegue fazer algo se
estiver vivo, não? O filho concorda. Então a morte é o fim. Vai dormir, amanhã
é outro dia. O filho, agora, olha para o pai. Dá-lhe um abraço. Vai para o seu
quarto. O pai coça a barriga, dá uma risada silenciosa, volta a roncar em
poucos minutos.
Blog dedicado à publicação de textos e músicas - de contos e poemas a artigos, de covers a canções próprias. Às vezes, tudo junto.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Dia sim, dia não
‘’Fala, amor, tudo bem? To te esperando na praia do dendê
já, de roupa de corrida. Beijo’’. Um avião das 9 que ia lonnnge, lonnnnnnge(não
vou falar pra onde ia. Ah, não sei? Claro que sei)passava perto da lua. A
mulher chega, dando um beijo no seu marido. Ambos começam a correr. Nada de ar
puro. Eles estavam correndo em uma natureza criada pelo próprio homem –latas de
cerveja, porta de geladeira, capinha de fita de vídeo-game e, claro, muita
merda e mijo adquiriam vida naquele ambiente. Rastejavam-se até a orla, para
onde exalavam seus fétidos, pútridos e doentes odores. Mas eles lá corriam,
como se andassem com aquelas máscaras que se usam em caso de risco biológico, meio
que Resident Evil.
Rô, rá, rô, rá, rô, rá, ah! Sentaram-se em um banco de
pedra, em frente a um restaurante todo pichado. A vista era linda. De um lado,
montanhas, serras e barcos ancorados. De outro, a favela, que, de longe,
parecia não ser aquele horror todo do qual se ouve falar. ‘’Amor, fiquei
sabendo hoje que o Lucas se separou da Stéfanie. Ele veio me falar que era pra
eu também virar solteiro e o acompanhar, junto com outro amigo separado, o Caju’’,
riu o homem. A mulher riu de volta, dizendo que ia lhe dar umas bordoadas na
cabeça se ele fizesse isso. O que é engraçado é que ambos se separavam dia sim,
dia não. Ambos sabiam que cada um possuía
casos extra-conjugais( eu disse CASOS, plural, não é um amantezinho ou uma
mulher da noite ). Um sexo aqui, outro acolá.
Por que não fizeram como os amigos? Esquecer a relação ruim,
começar tudo novamente? Mas eles começavam tudo novamente, dia sim, dia não.
Não havia nada de ruim pra esquecer. Isso porque a traição, de uma maneira toda
torta e avessa, fazia com que aquele homem e mulher se amassem. A carne gosta
de sentir novos suores, sangues e sexos, de uma maneira meio que narcótica. E o
corpo deles buscava isso. Mas aquele desejo passava em poucos segundos depois
do bem bom. Outra vez era enjoativo, como doce bonito que se come um pouquinho
e depois não se quer mais. Assim, ambos se lembravam de que tinham um prazer
bonito, daquele de bagunçar o cabelo do outro, rir da cara do outro, ficar
velho ao lado do outro. Era oscilante e nem tão alto quanto ao que achavam nos
homens e mulheres pela rua, porém, era sobremesa de vovó.
Por que o homem chamou a mulher até a praia do Dendê, tendo
tanto lugar paradisíaco e mais excitante para frequentar¿ Pois foram correndo
lá que se conheceram. Correr lá, dia sim, dia não, era a renovação daquele
amor. Parecia até que aquele ambiente foi construído em função deles – era um amor
sujo, mas eles só enxergavam a vista. ‘’ Ah, olha lá o barco chegando!’’, disse
o homem, apontando. Ela, desesperada, olhou para onde ele apontava. Um beijo na
bochecha foi roubado. Melhor, o homem só pegou o que já era dele, denovo. Deram
as mãos. Foram para casa.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Sou um só
Tentando ser poeta pela madrugada...
Sou um só
Sou um só,
Mas uma empreiteira
Que constrói, destrói, reconstrói,
Nunca terminando sua obra
Um lego humano, um presente sem ‘’carpe diem’’
Sou um só
Mas não só, mesmo andando comigo mesmo
Cada parte vivendo outra parte e a si de forma completa
Contrariando a lei da Boca do Inferno.
Afinal, sendo um tudo em um, sou congresso sendo povo.
JP Bortot
Sou um só
Sou um só,
Mas uma empreiteira
Que constrói, destrói, reconstrói,
Nunca terminando sua obra
Um lego humano, um presente sem ‘’carpe diem’’
Sou um só
Mas não só, mesmo andando comigo mesmo
Cada parte vivendo outra parte e a si de forma completa
Contrariando a lei da Boca do Inferno.
Afinal, sendo um tudo em um, sou congresso sendo povo.
JP Bortot
Una ragazza in due - cover feito por mim. Em breve, músicas próprias. Copie e cole o link em seu navegador.
http://www.youtube.com/watch?v=0adSB2TZOeY
Partiu funk e ``nejão`` ?
Vou falar do funk, o das ``novinhaisxx`` e dos ``leisxxk``.
Do ``coração em pedaços`` do sertanejo também. É comum dizerem que canções desses
estilos musicais não prestam, pois possuem letras com desvios de gramática ;
assuntos fúteis como carros(olha o camaro amarelo passando na minha rua agora),
festas, bebidas, azaração. Já até ouvi professor de teoria musical dizer que
funk não é música, mas apenas ritmo, uma vez que as batidas marcam apenas o
tempo, mas não atingem frequências que coincidem com as notas musicais.
Calma, não venham me bater, eu vou defender esses gêneros
musicais de alguma forma, prometo! É só continuar a ler o texto e digo de
antemão que não concordo com esse professor. Depois dessa abordagem do funk e
sertanejo, então porque grande parte das
pessoas vão a choppadas, boates e bares e não ficam com a mão no queixo,
fumando um charuto e ouvindo Bach e Chopin, mas sim o MC seilá o quê e a dupla
tanãnã e tanã? Bem, se os estilos musicais em questão são ouvidos nesses
lugares e todo mundo ``sai do chão``, significa que eles tem, sim o seu valor.
O que estou dizendo é
que cada música tem um tipo de ocasião adequada para ser ouvida. Claro que, em
casa, não ouço funk, apesar de que tem gente que faria o contrário. Contudo, se
eu vou em uma festa, eu gostaria de que o tocassem, assim como uma pancada de
gente. E Se tocarem um ``sertanejão`` ? Já
é motivo pro ``gatinho`` se aproximar da `` gatinha ``. Ou seja, tem muita
gente que é contraditória e hipócrita ao falar mal do funk e do sertanejo, que
são ritmos dançantes e contagiantes apesar de, musicalmente, serem pouco
trabalhados. E não ouvimos música justamente para nos deixar mais alegres, para
o ambiente não ficar tão pesado e tedioso? Bem, se o funk e o sertanejo são
capazes de exercer esse papel em nós durante a santa balada de cada fim de
semana, eles são, sim, boa música ; e o
funk é o contrário do que aquele professor disse.
JP Bortot
(Transa)ção econômica
Tarde quente, ar-condicionado quebrado, fila de banco, só um
dos caixas funcionando? Cadê os outros?! Justo quando venho ao banco? Aquele
fervor todo parecia preparar a entrada dela. Que calorão, meu amigo! Eu era o
último da fila, então, como sou cheio de malemolência, ofertei o meu talento
dado pelo senhor lá de cima. Rapaz, sabe aquelas morenas saradas, com roupa de
academia? Ela era isso e muito mais. O suor dela escorrendo pelo corpo... tá, o
suor, nesse caso, é sensual sim, não to pensando em ``subaco`` escorrendo não,
saí pra lá se você vier com esse pensamento, não estraga minha história não.
Como eu dizia, o suor dela, ah, suor dela... eu queria
lambê-lo. Como pode imaginar, a gente precisava de um banco mais quente do que
aquele. Eu só queria fazer um depósito rápido, mas o problema ( ou felicidade)
é que a morena era muito esperta e botou o dinheiro na poupança, que,
obviamente, rendeu juros. Meu amigão, como um gerente daqueles bons, foi quem
me avisou sobre as finanças.
Se eu fosse casado com a morena, eu teria ficado feliz, mas
eu já era casado. Como é que eu ia contar pra minha esposa? Minha esposa era um
exemplo de mulher. Trabalhadora, inteligente, bem arrumada, daquelas que
acordam bem cedinho pra lavar o cabelo, fazer prancha e tudo mais. Ela ia ter
um ``trem`` se eu falasse. Mas eu sou daqueles caras que não conseguem mentir,
sabe? Fiquei assoviando, levando a vida
normalmente, com minha gelada de fim semana, até que a morena me deu o aviso de que eu
tinha uma hipoteca pra pagar e , senão, a minha casa ia a leilão, eu assumi os
riscos daquele investimento descuidado e, claro, eu tive que contar pra minha
mulher.
Quando eu cheguei em casa, depois do trabalho, ela tava no
sofá, assistindo novela. Quis engolir a palavra, mas sentei do lado dela,
peguei na mão dela, olhei nos olhos dela e disse sobre aquela minha aventura
financeira. Ela deu risada. Ah, querido, já sabia que você saia com outras
mulheres, mas que eu sempre fui a sua oficial. Eu já esperava essa cobrança que
lhe deram. Já que a gente tá falando de investimentos de alto risco, peço que
não se incomode caso sinta algum cheiro diferente em nosso quarto. Fiquei
parado olhando pra ela, por um instante, ao ouvir aquela informação. Bem, eu
tive que dar um risinho de canto de boca. Virei para a TV junto com minha esposa
e assistimos a novela.
Estudando com nada
O garoto nerd passou no vestibular. Ele nem pensava no
trote, na cota que ia ter que pagar. Ele só pensava que, na faculdade, ele
poderia ler muito, porque muitos livros lá teria. Primeiro dia – tinta, ovo,
gritaria. Nada de biblioteca, nem cheiro, nem uma olhadinha, pois não sabia
onde ela ficava e os veteranos levaram a turma toda dos calouros pra outro
lugar. Segundo dia - trote denovo, mesma
coisa. Bem, aquela zuação seguiu a semana inteira(não importa o trote; se você
tá curioso como é um, problema seu – e que problema!). Mas já no terceiro dia,
ele encontrou a biblioteca. Foi meio que uma batida de carro com toda a sua
família – ele correu tão depressa pra ter acesso ao corredor da biblioteca e,
vasculhando-a, sentiu-se desamparado, só.
Uma biblioteca sem livros. Pro garoto, aquele era o trote. Como estudar?
``Você pode comprar os livros, pegar xerox antigos no CA ou baixar da internet.
Fica tranquilo, garoto``, disseram-lhe. Ele pensou, então, algumas hipóteses –
arranjar uma boa quantia de dinheiro de algum modo pra comprar os livros ;
gastar , no xerox, todas as moedas que tinha ; aposentar o membro superior
direito depois da faculdade, já que ia inflamar
os tendões de ambos os músculos flexores dos dedos de tanto rolar o mouse e clicar pra passar as
páginas no computador ; e, por último, fazer par com a menina que roubava
livros...
A opção dele eu deixo em segredo. A história e o narrador param
aqui a fim de dar voz ao autor do texto.
Esse garoto nerd nada mais é que uma representação dos universitários
brasileiros, que tem que se virar pra encontrar material de estudo. Fica-se
reclamando de cópias ilegais, direitos autorais, mas ninguém fornece livros.
Digo bons livros, com capa e páginas inteiras, não aqueles de mil oitocentos e
setenta e tantos.
É, apesar de haver alguns estudantes meio trambiqueiros, os
universitários brasileiros são bons mesmo, pois conseguem se formar mesmo com
todo esse problema. Agora, se se formam bem ou não, é outra questão, porque,
daí, teria que se discutir a qualidade das universidades, que também não é lá
aquilo tudo. Mesmo assim, eles tem, sim, grande proeza.
Capítulo 3.437
Nosso relacionamento era ano bissexto. Um esquecia do outro
a maior parte do tempo, e ,lá num dia que se tem de vez em quando,
lembravamo-nos . Isso porque um de nós descuidava em esconder o amor e mandava
um SMS, pra perguntar se tava tudo bem. O final quase sempre era sexo. A gente
era meio Janis Joplin e Cazuza de trajes a rigor. Tínhamos todas as ideologias
pra se viver e éramos muitos doidos, por natureza mesmo, sem um beckzinho
sequer. Mas, afinal, como podíamos
definir nosso relacionamento? Enrolado? Amizade colorida? Foda amiga? Ela me
disse pra parar de ser um pouco humano, essa coisa de ficar classificando e
organizando tudo. Pra ela, a gente só tinha que sentir. Não concordava com ela,
mas eu gostava deste sentir.
Quando ela me ligava de madrugada e falava que estava na
praia, eu ia. Na palavra, relutava ao telefone, pra se fazer de difícil. No
pensamento e no ato, eu ia sem hesitar. Acho que era realmente esse nhém-nhem-nhem
que tornava o nosso amor um carro esportivo na mão de um cara de classe média –
um carro todo bonito e altamente potente, mas custoso, tendo que fazer
economias por um tempo pra andar nele denovo. Ah, aquela dificuldade... mas
aquela vontade!
Eu também incomodava a
minha parceira algumas vezes, mas como não é ela quem escreve o texto, eu teria que chamar o Chuck Norris pra saber
o que ela pensava nessas ocasiões. Só sei o que ela queria – que eu a abraçasse
por trás enquanto sentávamos na areia ;
que eu, sendo estudante de medicina, pesquisasse se ela tinha o Phthirus pubis
, primeiro anatomicamente, verificando alterações da pele. Depois, com toda a
minha microscopiodade , eu via o que
o corpo dela, em detalhes, fazia. Gemidinhos, gritinhos, ah!
Mas isso acabou. Ela disse que era homossexual e que se casaria
com um mulher. Eu falei que a gente poderia continuar com os nossos 29s de
fevereiro, mas ela se tornou uma mulher decidida, de uma coisa só. Bem, eu
pareço que estou sendo saudosista ao escrever esse texto. Mas, fiquem
tranquilos, não se importem comigo! Não, não é auto-piedade. Acho que nesse
momento, vocês estão querendo me bater por tanta enrolação. Tá bom, tá bom, eu
falo! Esse é só mais um texto pra contar sobre as minhas titinas.
JP Bortot
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