sábado, 8 de fevereiro de 2014

Capítulo 3.437

Nosso relacionamento era ano bissexto. Um esquecia do outro a maior parte do tempo, e ,lá num dia que se tem de vez em quando, lembravamo-nos . Isso porque um de nós descuidava em esconder o amor e mandava um SMS, pra perguntar se tava tudo bem. O final quase sempre era sexo. A gente era meio Janis Joplin e Cazuza de trajes a rigor. Tínhamos todas as ideologias pra se viver e éramos muitos doidos, por natureza mesmo, sem um beckzinho sequer.  Mas, afinal, como podíamos definir nosso relacionamento? Enrolado? Amizade colorida? Foda amiga? Ela me disse pra parar de ser um pouco humano, essa coisa de ficar classificando e organizando tudo. Pra ela, a gente só tinha que sentir. Não concordava com ela, mas eu gostava deste sentir.
Quando ela me ligava de madrugada e falava que estava na praia, eu ia. Na palavra, relutava ao telefone, pra se fazer de difícil. No pensamento e no ato, eu ia sem hesitar. Acho que era realmente esse nhém-nhem-nhem que tornava o nosso amor um carro esportivo na mão de um cara de classe média – um carro todo bonito e altamente potente, mas custoso, tendo que fazer economias por um tempo pra andar nele denovo. Ah, aquela dificuldade... mas aquela vontade!
Eu também  incomodava a minha parceira algumas vezes, mas como não é ela quem escreve o texto,  eu teria que chamar o Chuck Norris pra saber o que ela pensava nessas ocasiões. Só sei o que ela queria – que eu a abraçasse por trás enquanto sentávamos na areia ;  que eu, sendo estudante de medicina, pesquisasse se ela tinha o Phthirus  pubis , primeiro anatomicamente, verificando alterações da pele. Depois, com toda a minha microscopiodade , eu via o que o corpo dela, em detalhes, fazia. Gemidinhos, gritinhos, ah!
Mas isso acabou. Ela disse que era homossexual e que se casaria com um mulher. Eu falei que a gente poderia continuar com os nossos 29s de fevereiro, mas ela se tornou uma mulher decidida, de uma coisa só. Bem, eu pareço que estou sendo saudosista ao escrever esse texto. Mas, fiquem tranquilos, não se importem comigo! Não, não é auto-piedade. Acho que nesse momento, vocês estão querendo me bater por tanta enrolação. Tá bom, tá bom, eu falo! Esse é só mais um texto pra contar sobre as minhas titinas.


JP Bortot

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