Nosso relacionamento era ano bissexto. Um esquecia do outro
a maior parte do tempo, e ,lá num dia que se tem de vez em quando,
lembravamo-nos . Isso porque um de nós descuidava em esconder o amor e mandava
um SMS, pra perguntar se tava tudo bem. O final quase sempre era sexo. A gente
era meio Janis Joplin e Cazuza de trajes a rigor. Tínhamos todas as ideologias
pra se viver e éramos muitos doidos, por natureza mesmo, sem um beckzinho
sequer. Mas, afinal, como podíamos
definir nosso relacionamento? Enrolado? Amizade colorida? Foda amiga? Ela me
disse pra parar de ser um pouco humano, essa coisa de ficar classificando e
organizando tudo. Pra ela, a gente só tinha que sentir. Não concordava com ela,
mas eu gostava deste sentir.
Quando ela me ligava de madrugada e falava que estava na
praia, eu ia. Na palavra, relutava ao telefone, pra se fazer de difícil. No
pensamento e no ato, eu ia sem hesitar. Acho que era realmente esse nhém-nhem-nhem
que tornava o nosso amor um carro esportivo na mão de um cara de classe média –
um carro todo bonito e altamente potente, mas custoso, tendo que fazer
economias por um tempo pra andar nele denovo. Ah, aquela dificuldade... mas
aquela vontade!
Eu também incomodava a
minha parceira algumas vezes, mas como não é ela quem escreve o texto, eu teria que chamar o Chuck Norris pra saber
o que ela pensava nessas ocasiões. Só sei o que ela queria – que eu a abraçasse
por trás enquanto sentávamos na areia ;
que eu, sendo estudante de medicina, pesquisasse se ela tinha o Phthirus pubis
, primeiro anatomicamente, verificando alterações da pele. Depois, com toda a
minha microscopiodade , eu via o que
o corpo dela, em detalhes, fazia. Gemidinhos, gritinhos, ah!
Mas isso acabou. Ela disse que era homossexual e que se casaria
com um mulher. Eu falei que a gente poderia continuar com os nossos 29s de
fevereiro, mas ela se tornou uma mulher decidida, de uma coisa só. Bem, eu
pareço que estou sendo saudosista ao escrever esse texto. Mas, fiquem
tranquilos, não se importem comigo! Não, não é auto-piedade. Acho que nesse
momento, vocês estão querendo me bater por tanta enrolação. Tá bom, tá bom, eu
falo! Esse é só mais um texto pra contar sobre as minhas titinas.
JP Bortot
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