sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Por nada


O filho chega no quarto do pais, que já roncavam há tempos. Senta-se na cama, sem acender a luz.  A mãe roncava tanto que qualquer despertador faria silêncio no momento programado de alarme. O filho acorda o pai. Pai, quero me matar! O pai, curiosamente, não se assustou, apenas se sentou ao lado do filho. Pai, tudo que eu faço dá errado, sei fazer nada direito. O pai pergunta porque o filho pensava daquela maneira. Silêncio. O filho não olhava para a cara do pai. Parecia sentir vergonha, desprezo por si. É, é, é, é... fiz nada de errado não, só as coisas que dão errado, não sei definir bem. Só quero acabar logo com isso. O pai coçou uma careca feia e sardenta, mas cheia de experiência. Tá me dizendo que fez nada de ilegal e imoral? O filho deu risada e concordou. Se eu não tenho serventia e até atrapalho, não faz sentido eu continuar a viver. O pai olha bem pro filho. Então porque você já não se suicidou? O filho se assusta. Como assim? Estava sendo encorajado a se suicidar. Ah, pai, tenho medo, mas quero me suicidar, não aguento mais? O pai, curioso, pergunta o quê o filho não mais aguentava. Ah, não sei. O pai deu um risinho de canto de boca. Filho, se você não sabe o motivo que o faz pensar em morrer, então você morreria por nada? E você não quer justamente fazer algo direito, servir pra alguma coisa? O filho fica confuso. Pensa. É, pai, eu queria morrer por nada mesmo  - falou por falar, pra fazer afronta. Cabeça mais confusa. Então sua morte terá nenhuma serventia e isso seria mais uma prova de que você é um ser humano qualquer nesse mundo, que morreu e fez nenhuma diferença em vida. Cabeça fervendo. É, pai, mas pelo menos eu ia me aliviar de todo esse sofrimento. O pai ri. Filho, você iria sofrer mais ainda. Primeiro que ninguém te daria uma injeção letal pra você não sentir dor durante a morte, então você teria que partir para métodos agressivos. Você já se chora todo com um cortezinho no dedo. E, embora você conseguisse um método pra não sentir dor, você sofreria do mesmo jeito, porque perderia os seus sentidos, a percepção de estar nesse mundo. É, pai, mas todo mundo fala que a outra vida é muito boa, sem sofrimento, sem nada. O pai bota a mão no na barba, um tanto branca. Se a outra vida fosse tão boa, todo ser humano se suicidaria. E conheço uma ``pancada`` de gente que acredita na outra vida e não se mata. Ma,ma,ma,ma,mas pai, o que eu faço então? Filho, você só consegue fazer algo se estiver vivo, não? O filho concorda. Então a morte é o fim. Vai dormir, amanhã é outro dia. O filho, agora, olha para o pai. Dá-lhe um abraço. Vai para o seu quarto. O pai coça a barriga, dá uma risada silenciosa, volta a roncar em poucos minutos.

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