sábado, 8 de fevereiro de 2014

Estudando com nada


O garoto nerd passou no vestibular. Ele nem pensava no trote, na cota que ia ter que pagar. Ele só pensava que, na faculdade, ele poderia ler muito, porque muitos livros lá teria. Primeiro dia – tinta, ovo, gritaria. Nada de biblioteca, nem cheiro, nem uma olhadinha, pois não sabia onde ela ficava e os veteranos levaram a turma toda dos calouros pra outro lugar. Segundo dia -  trote denovo, mesma coisa. Bem, aquela zuação seguiu a semana inteira(não importa o trote; se você tá curioso como é um, problema seu – e que problema!). Mas já no terceiro dia, ele encontrou a biblioteca. Foi meio que uma batida de carro com toda a sua família – ele correu tão depressa pra ter acesso ao corredor da biblioteca e, vasculhando-a, sentiu-se desamparado, só.  Uma biblioteca sem livros. Pro garoto, aquele era o trote. Como estudar? ``Você pode comprar os livros, pegar xerox antigos no CA ou baixar da internet. Fica tranquilo, garoto``, disseram-lhe. Ele pensou, então, algumas hipóteses – arranjar uma boa quantia de dinheiro de algum modo pra comprar os livros ; gastar , no xerox, todas as moedas que tinha ; aposentar o membro superior direito depois da faculdade, já que ia inflamar  os tendões de ambos os músculos flexores dos dedos  de tanto rolar o mouse e clicar pra passar as páginas no computador ; e, por último, fazer par com a menina que roubava livros...
A opção dele eu deixo em segredo. A história e o narrador param aqui a fim de dar voz ao autor do texto.  Esse garoto nerd nada mais é que uma representação dos universitários brasileiros, que tem que se virar pra encontrar material de estudo. Fica-se reclamando de cópias ilegais, direitos autorais, mas ninguém fornece livros. Digo bons livros, com capa e páginas inteiras, não aqueles de mil oitocentos e setenta e tantos.
É, apesar de haver alguns estudantes meio trambiqueiros, os universitários brasileiros são bons mesmo, pois conseguem se formar mesmo com todo esse problema. Agora, se se formam bem ou não, é outra questão, porque, daí, teria que se discutir a qualidade das universidades, que também não é lá aquilo tudo. Mesmo assim, eles tem, sim, grande proeza.



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