Dia sim, dia não
‘’Fala, amor, tudo bem? To te esperando na praia do dendê
já, de roupa de corrida. Beijo’’. Um avião das 9 que ia lonnnge, lonnnnnnge(não
vou falar pra onde ia. Ah, não sei? Claro que sei)passava perto da lua. A
mulher chega, dando um beijo no seu marido. Ambos começam a correr. Nada de ar
puro. Eles estavam correndo em uma natureza criada pelo próprio homem –latas de
cerveja, porta de geladeira, capinha de fita de vídeo-game e, claro, muita
merda e mijo adquiriam vida naquele ambiente. Rastejavam-se até a orla, para
onde exalavam seus fétidos, pútridos e doentes odores. Mas eles lá corriam,
como se andassem com aquelas máscaras que se usam em caso de risco biológico, meio
que Resident Evil.
Rô, rá, rô, rá, rô, rá, ah! Sentaram-se em um banco de
pedra, em frente a um restaurante todo pichado. A vista era linda. De um lado,
montanhas, serras e barcos ancorados. De outro, a favela, que, de longe,
parecia não ser aquele horror todo do qual se ouve falar. ‘’Amor, fiquei
sabendo hoje que o Lucas se separou da Stéfanie. Ele veio me falar que era pra
eu também virar solteiro e o acompanhar, junto com outro amigo separado, o Caju’’,
riu o homem. A mulher riu de volta, dizendo que ia lhe dar umas bordoadas na
cabeça se ele fizesse isso. O que é engraçado é que ambos se separavam dia sim,
dia não. Ambos sabiam que cada um possuía
casos extra-conjugais( eu disse CASOS, plural, não é um amantezinho ou uma
mulher da noite ). Um sexo aqui, outro acolá.
Por que não fizeram como os amigos? Esquecer a relação ruim,
começar tudo novamente? Mas eles começavam tudo novamente, dia sim, dia não.
Não havia nada de ruim pra esquecer. Isso porque a traição, de uma maneira toda
torta e avessa, fazia com que aquele homem e mulher se amassem. A carne gosta
de sentir novos suores, sangues e sexos, de uma maneira meio que narcótica. E o
corpo deles buscava isso. Mas aquele desejo passava em poucos segundos depois
do bem bom. Outra vez era enjoativo, como doce bonito que se come um pouquinho
e depois não se quer mais. Assim, ambos se lembravam de que tinham um prazer
bonito, daquele de bagunçar o cabelo do outro, rir da cara do outro, ficar
velho ao lado do outro. Era oscilante e nem tão alto quanto ao que achavam nos
homens e mulheres pela rua, porém, era sobremesa de vovó.
Por que o homem chamou a mulher até a praia do Dendê, tendo
tanto lugar paradisíaco e mais excitante para frequentar¿ Pois foram correndo
lá que se conheceram. Correr lá, dia sim, dia não, era a renovação daquele
amor. Parecia até que aquele ambiente foi construído em função deles – era um amor
sujo, mas eles só enxergavam a vista. ‘’ Ah, olha lá o barco chegando!’’, disse
o homem, apontando. Ela, desesperada, olhou para onde ele apontava. Um beijo na
bochecha foi roubado. Melhor, o homem só pegou o que já era dele, denovo. Deram
as mãos. Foram para casa.
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