segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Dia sim, dia não
‘’Fala, amor, tudo bem? To te esperando na praia do dendê já, de roupa de corrida. Beijo’’. Um avião das 9 que ia lonnnge, lonnnnnnge(não vou falar pra onde ia. Ah, não sei? Claro que sei)passava perto da lua. A mulher chega, dando um beijo no seu marido. Ambos começam a correr. Nada de ar puro. Eles estavam correndo em uma natureza criada pelo próprio homem –latas de cerveja, porta de geladeira, capinha de fita de vídeo-game e, claro, muita merda e mijo adquiriam vida naquele ambiente. Rastejavam-se até a orla, para onde exalavam seus fétidos, pútridos e doentes odores. Mas eles lá corriam, como se andassem com aquelas máscaras que se usam em caso de risco biológico, meio que Resident Evil.
Rô, rá, rô, rá, rô, rá, ah! Sentaram-se em um banco de pedra, em frente a um restaurante todo pichado. A vista era linda. De um lado, montanhas, serras e barcos ancorados. De outro, a favela, que, de longe, parecia não ser aquele horror todo do qual se ouve falar. ‘’Amor, fiquei sabendo hoje que o Lucas se separou da Stéfanie. Ele veio me falar que era pra eu também virar solteiro e o acompanhar, junto com outro amigo separado, o Caju’’, riu o homem. A mulher riu de volta, dizendo que ia lhe dar umas bordoadas na cabeça se ele fizesse isso. O que é engraçado é que ambos se separavam dia sim, dia não.  Ambos sabiam que cada um possuía casos extra-conjugais( eu disse CASOS, plural, não é um amantezinho ou uma mulher da noite ). Um sexo aqui, outro acolá.
Por que não fizeram como os amigos? Esquecer a relação ruim, começar tudo novamente? Mas eles começavam tudo novamente, dia sim, dia não. Não havia nada de ruim pra esquecer. Isso porque a traição, de uma maneira toda torta e avessa, fazia com que aquele homem e mulher se amassem. A carne gosta de sentir novos suores, sangues e sexos, de uma maneira meio que narcótica. E o corpo deles buscava isso. Mas aquele desejo passava em poucos segundos depois do bem bom. Outra vez era enjoativo, como doce bonito que se come um pouquinho e depois não se quer mais. Assim, ambos se lembravam de que tinham um prazer bonito, daquele de bagunçar o cabelo do outro, rir da cara do outro, ficar velho ao lado do outro. Era oscilante e nem tão alto quanto ao que achavam nos homens e mulheres pela rua, porém, era sobremesa de vovó.

Por que o homem chamou a mulher até a praia do Dendê, tendo tanto lugar paradisíaco e mais excitante para frequentar¿ Pois foram correndo lá que se conheceram. Correr lá, dia sim, dia não, era a renovação daquele amor. Parecia até que aquele ambiente foi construído em função deles – era um amor sujo, mas eles só enxergavam a vista. ‘’ Ah, olha lá o barco chegando!’’, disse o homem, apontando. Ela, desesperada, olhou para onde ele apontava. Um beijo na bochecha foi roubado. Melhor, o homem só pegou o que já era dele, denovo. Deram as mãos. Foram para casa.

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